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As fotos e as palavras

José Spinola*

José Spinola

 

Um destes dias alguém que estimo colocou-me uma questão académica, que lhe tinha sido colocada por um acadêmico:

O que é uma fotografia original?

A fotografia só é arte quando o fotógrafo faz o outro sentir o que ele sentiu.

Ao olhar uma foto de um sobrado velho na Lapinha, silenciosos pensamentos melancólicos permeiam a minha mente. Contudo, ao saber que naquele sobrado morou o poeta Castro Alves, subitamente, de uma janela, vejo raios-de-sol escrevendo letras que encantam.

A fotografia será sempre uma coisa que foi. Modificando-a, você muda o tempo e tira a sua magia.

De qualquer lado que eu veja a foto de uma mulher deitada, nua, eu codifico imagens côncavas e convexas em vez de mil palavras. No compromisso de decodificar as imagens, apenas uma palavra me basta: curvas.

A fotografia sempre interrompe alguma ação e autentica aquele instante suspenso. O antes e o depois carecem de literatura para explicar o percebido e o imaginado.

A diferença entre a fotografia e o cinema? Tento explicar. Ao ver uma mulher passando, mentalmente fotografo-a, imobilizando-a naquele instante em que achei o mais belo. Todavia, se ela dirigir-me seu olhar e eu ouvir a sua voz, já fazemos parte de um filme. Na foto ela não sai. No filme nós saímos.

Para aquele em que vale mais sonhar do que viver mostre uma imagem abstrata ou a manhã de uma cidade. Para o contrário mostre uma paisagem campestre. A manhã da cidade promete. A manhã do campo existe.

É inútil fotografar nuvens. Inútil, também, explicar o porquê.

Queira ou não queira, ao fotografar você transmite suas impressões. Cabe a você, com palavras, explicar se aquelas impressões são ou não suas convicções.

Sinto que há um grande mistério quando vejo uma foto e alguma coisa escrita por mim, ambas da mesma época passada. Pelo exame da foto, eu não mudei nada. Pela coisa escrita, muitas vezes, não me reconheço.

Rara vez a palavra e a imagem sobre determinado assunto se igualam no entendimento. Quando isso acontece, você viu com o coração.

Espontaneamente, o homem admira o corpo da mulher. Talvez seja por isso que dizemos que uma imagem vale mais do que mil palavras.

A imagem da mulher é a única que leva para a fotografia a sensualidade incorporada.

Sempre me mareiam os olhos ao ver as fotografias dos meus que já se foram. É a única vez que a fotografia traz implícita a busca, a reconstrução, das palavras daqueles momentos que você não consegue ver mais, mas consegue ouvir e sentir.

*José Spinola é engenheiro e amante da fotografia.

 

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