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Arte Digital

Rê Rodrigues*

Alguns artistas muito bem conceituados fazem logo uma careta quando falamos de arte digital. "Para mim isso não é arte", nos disse um, daqui de Recife. "Não dou o menor valor", arrematou outro, também de Recife, que já foi Artista da Semana em CyberArtes. É indiscutível que o mesmo programa de tratamento de imagens, quando trabalhado por uma ou outra pessoa irá produzir diferentes resultados, dependendo mais da capacidade criadora e artística do manipulador do que do seu conhecimento do software e do domínio das técnicas, embora, obviamente, isso seja também importante.

Afinal, pinceis e tintas são igualmente ferramentas e tiveram sua evolução ao longo do tempo. Primitivamente os pigmentos eram derretidos em gordura animal e foi assim que trabalharam os nossos antepassados das cavernas. Até chegarmos a tinta a óleo, houve um longo caminho. E o que dizer quando surgiu a fotografia? O artista que levava muito tempo retratando um rosto foi, repentinamente, comparado a um outro que fazia o trabalho quase instantaneamente. "Isso não é arte" - deve ter sido a palavra de ordem naquela época, lá se vão dois séculos.

Os artistas da fotografia evoluíram fazendo modificações na própria imagem fotografada através de artifícios técnicos variados, criando imagens não existentes na realidade. Isso é arte? Embora o assunto não seja hoje tão discutido como deve ter sido no passado, o debate ainda existe. Algumas pessoas ainda torcem o nariz para a arte fotográfica como se o efeito não dependesse do artista e fosse obra unicamente da máquina mas o fato é que os museus e galerias já fazem normalmente exposições desse tipo com uma quase unânime aceitação.

É natural que se considere que a pessoa que simplesmente aponta uma câmera fotográfica e pressiona um botão não está exatamente fazendo arte, assim como melar um pincel com tinta e sujar uma tela também não o é. O fato é que existem borrões de tinta e Borrões de Tinta, assim como fotografia e Fotografia. Arte é uma coisa mais ou menos indefinível e cada um deve fazer o seu julgamento.

O debate agora é em torno do computador e dos poderosos programas de tratamento de imagens como o CorelDraw, o PhotoShop e outros menos populares. Ora, ensine-se o manuseio dessa ferramenta, desse novo tipo de pincel, a pessoas talentosas e sem talento e teremos a resposta óbvia. O artista fará arte. O sem talento irá divertir-se mas será incapaz de produzir.

Vou mais alem ainda. Mesmo sem grandes recursos e sem domínio dos softwares, algumas pessoas criativas e de potencial artístico, produzem imagens divertidas e agradáveis. Tenho um amigo que, sem qualquer preocupação com qualidade e pensando unicamente no seu divertimento, produz imagens divertidas e agradáveis, como as que mostro abaixo, onde uniu a fotografia de um olho, multiplicou-a, mesclou com fotos dele mesmo e criou uma paisagem surrealista que é uma viagem. As colagens são sem esmero e facilmente perceptíveis (Falta a meu amigo um pouco de paciência) mas o resultado é, mesmo assim, agradável. A outra montagem, com fotos minhas e de minha gatinha, foi um belo presente que ganhei. Será que ele é um artista? Se perguntar pra ele, certamente vai responder que não mas há uma certa criação artística em tudo isso, mesmo que não haja esmero e paciência para os detalhes.

Nesse contexto, CyberArtes é uma palavra de vanguarda e fortemente geradora de polêmica. Recentemente aconteceu em Paris o Cybersculpture 2002 e talvez não seja tão fácil imaginar o que foi mostrado por lá. Artistas pernambucanos estiveram participando e apresentando trabalhos pois o uso de computadores por artistas pernambucanos não é absolutamente novidade. João Câmara, extremamente conceituado e admirado entre nós é pioneiro no uso dessa tecnologia. E está sendo criada em Recife uma escola para artistas digitais. Claro que esse pessoal utilizará equipamentos caros e o processo é elitista mas, quem conhece bem o preço de materiais de pintura, sabe muito bem que há uma diferença enorme entre os preços das tintas e pinceis comuns e os melhores produtos e isso também é elitista.

 

Quem passeia pela Internet ou simplesmente vê televisão ou vai ao cinema, está cansado de ver imagens criadas por softwares. Podem sem criações de boa ou ma qualidade e isso depende muito mais do artista do que do software empregado. O uso do computador não elimina a criação e o talento, apenas muda o tipo de ferramenta e as possibilidades. A obra de arte, hoje, pode ter movimento, dançar e pular na sua frente. Das 3 imagens abaixo, uma é de Jesus Cardenet, outra está atualmente na XXV Bienal de São Paulo e foi mostrada também por CyberArtes e a terceira foi criada por Adolf Schaller, que eu não sei quem é e copiei de um livro sobre o cosmos. Eu sei que uma dessas imagens não teve uso do computador. Sei também que uma delas é da década de 70 e os recursos eram diferentes naquela época mas já haviam possibilidades. Nada sei sobre a outra. Estou omitindo, propositadamente, as informações que tenho, exatamente para possibilitar alguma especulação. O que você acha?

   

Computadores são usados largamente para criar imagens de uso no cinema e na televisão, assim como na embalagem de produtos, logomarcas, panfletos e todo o tipo de coisa que povoa o nosso cotidiano. Gostando ou não, temos que admitir que a arte digital está extremamente próxima da nossa vida. Os efeitos especiais mostrados no cinema são possibilidades que não existiam antes. Assisti recentemente 2001 Uma Odisséia no Espaço por insistência de um amigo que é amante da ficção científica e fez questão de me mostrar esse filme que marcou época, entre outros fatores, pelos efeitos especiais. Só que esses efeitos especiais, hoje, aparecem como coisa simples e corriqueira. É a evolução da tecnologia que permite novas formas de expressão artística. A arte digital é arte sim, pode produzir imagens fortes, contundentes e belas e não veio para combater nenhuma outra forma de arte. Há um espaço para cada coisa e tudo tem o seu valor.

*Rê Rodrigues – Artista Plástica - www.cyberartes.com.br

 

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