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Amálgama fotográfico

Ives Padilha*

A princípio o que seria amálgama? Uma liga metálica em que um dos metais envolvidos estaria em estado líquido. O único metal que se encontra naturalmente em estado líquido é o mercúrio. Bom, mas o que o amálgama, geralmente citado pela odontologia, tem a ver com a fotografia? Não seria querer apenas fazer uma analogia com a fabricação de ligas, juntando os diferentes, os diferentes olhares fotográficos?

Poderia ser até uma despretensiosa analogia como esta se amálgama fotográfico não tivesse um real papel na história da fotografia. E nessa história entra o famoso mercúrio acima citado, outros metais, experimentação e um feliz acidente.

Voltemos ao tempo de Daguerre. Ele tinha um grande problema que era a fixação da imagem na placa de metal sensibilizada. Demorava muito tempo para capturar uma imagem e muitos experimentos eram feitos para solucionar esse problema. Um belo dia Daguerre guarda um de suas placas de metal sensibilizadas (placa de cobre coberta com prata polida utilizada por ele) num armário que continha um termômetro quebrado. O que houve então? No dia seguinte Daguerre notou que a ação do mercúrio com a placa formou um amálgama nas áreas atingidas pela luz formando a área clara de uma imagem, que por conseqüência, se apresentava bem mais visível que o habitual. Esse acidente propiciou a Daguerre diminuir o tempo de exposição de horas para minutos.

Daí a fotografia seguiu sua evolução por caminhos tortuosos e múltiplos até o dia de hoje. Tão múltiplos em tecnologias e artes que dá a pensar que a própria fotografia, tomada em termo amplo, é um grande amálgama ou conjunto de amálgamas. Conjuntos de inspirações de diversos campos, diversas tecnologias, diversos olhares se combinam formando imagens, não apenas metais.

Também, até hoje, é bem vindo o feliz acidente Daguerriano. Quantos de nós não desejamos um acaso que nos dê a melhor imagem e nos preparamos continuamente para conseguir recebê-la/tratá-la/revelá-la/fazê-la? Pelas ruas buscamos a exata química da combinação do mundo, com nosso olhar, com o instante (flúido como o mercúrio). A exata combinação que formará o mais brilhante amálgama, a preciosa "A" foto.

*Ives Padilha é estudante de Psicologia.

 

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