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Por que fotografar os mais humildes?

Texto e fotos: Tiago da Arcela*

Tiago da Arcela

 

O leitor pode discordar, mas podemos constatar, observando, desde fotos de Sebastião Salgado, passando por livros e exposições de etnografia/fotodocumentarismo e por imagens vencedoras de concursos fotográficos, que a maioria dos retratados são, ou aparentam ser, de classes sociais mais baixas.

Não sou contra esse tipo de fotografia, em absoluto! Prefiro fotografar uma festa em uma comunidade pesqueira do que um grande casamento da high society. Mas nem por isso acho que não devamos pensar sobre as motivações desse fenômeno.

Certa feita, durante um trabalho de campo relacionado à matéria Psicologia Comunitária, em 2004, tive uma experiência que me levou a entender, na prática, a questão da dignidade do ser humano fotografado.

Havia distribuição de alimentos em uma Igreja na Praça da Piedade, em Salvador. Lá fomos, eu e um colega, com “um bom coração”, para ver, fotografar e fazer um relato sobre o que ocorria. A fila era grande, havia algumas pessoas embriagadas, velhas senhoras, crianças mal-penteadas e com retalhos de roupa cobrindo seus corpos...

Começamos a tirar umas fotos, de perto, quando chegaram dois homens que estavam na fila, e começaram a discutir conosco, proibindo as fotografias. Nós conversamos, explicando nossas motivações, mas eles não queriam saber, diziam que iam quebrar os 4, nós dois e as duas câmeras.

Fomos embora, com algumas fotos, nenhum arranhão e uma lição: aquela situação, a de pedir comida, talvez seja das mais baixas a que o ser humano possa se submeter. A situação, em si, não é dignificante; não é o fato da pessoa ser humilde que tornou difícil fotografar ali, mas a situação que elas estavam.

Bem diferente foi a recepção que tivemos quando começamos a fotografar os vendedores de cafezinho, na mesma praça e arredores. A peculiaridade deles são os carrinhos onde colocam as garrafas de café: decorados de diversas maneiras, com alusões a times de futebol, símbolos religiosos, cantores famosos, dentre outras. São obras realizadas por eles. Ao invés de querer nos bater, os vendedores de café posavam orgulhosos ao lado de seus “rebentos”.

Vê-se a diferença; tanto os vendedores de cafezinho como o pessoal da fila da igreja são humildes, mas os vendedores estavam mostrando sua arte, e não há porque se envergonhar disso.

Tudo bem: fotografamos as festas populares, as feiras, as prostitutas das “bocas do lixo”, os mendigos, os meninos de rua, os trabalhadores informais em praias, feiras, centros de cidades, etc. Mas onde estão as fotos dos médicos, advogados, empresários, da classe média/alta “bem sucedida”? Bom... parece que só na revista Caras ou na coluna social! Ou então, nos anúncios publicitários de jornais, revistas e outdoors... É quase inexistente, embora importante, a fotografia tendo como objeto as classes média e alta, desvinculada de questões comerciais e publicitárias, quer dizer, projetos fotográficos autorais que englobem esse tema.

Há uma direção básica, na tentativa de responder ao por quê da maioria das fotografias do cotidiano serem de pessoas humildes: são eles que estão em maior número nos espaços públicos.

Nas grandes festas, as pessoas de classes “mais favorecidas", no geral, ficam em lugares pagos. Se há a Lavagem do Bomfim, que atrai centenas de milhares de pessoas às ruas da cidade baixa, em Salvador, há também o Bonfim Light, festa paga que ocorre próximo a muvuca popular, para umas 2 mil pessoas dispostas a pagar 100 reais por uma camisa-convite.

Se há o carnaval do povo nas ruas de Salvador, há também o dos "ricos", dentro das cordas dos blocos. Sem falar nas festas em boates, ou em hotéis, ambientes privados, que dificultam a fotografia do cotidiano; há que se lembrar das complicações legais que podem surgir do uso de imagens de terceiros em ambientes privados, sem autorização.

Um outro ponto, talvez o mais delicado, é: será que os mais ricos são mais resistentes a serem fotografados por estranhos, no tocante às questões de direito de imagem? Essa questão eu deixo para o leitor buscar suas próprias conclusões.

Não podemos esquecer também, que os fotógrafos se sentem atraídos por diferentes motivos fotográficos: um busca flagra de celebridades, outro festas populares, um terceiro observa a natureza, e por aí vai.

Vejo uma beleza estética ligada a muitos elementos da cultura popular, tanto nas cores da fachada de uma casinha do interior, como nas roupas usadas em uma festa folclórica, ou nas diversas formas de trabalho informal.

Além da questão estética, há outra: os mais pobres são maioria neste país, logo uma leitura fotográfica da realidade dele deve passar pelo registro daqueles.

Quem são os brasileiros que têm espaço na mídia imagética dominante deste país? Não é difícil responder, são os modelos de sucesso da sociedade em que vivemos: são os esportistas, os políticos, os artistas da grande mídia, os empresários de sucesso, etc. Quando aparece alguém de classe baixa em um jornal, impresso ou televisivo, geralmente é reclamando por saneamento ou outros direitos básicos.

Quais são os “objetos” que têm espaço na mídia imagética dominante deste país? Também não é difícil concluir que pouco espaço há para se mostrar carrinhos de vendedores de café, mas sim fotos dos carros do ano, aparelhos celulares, casas artificialmente decoradas, etc. Até as casas dos “núcleos pobres” das novelas são incrivelmente arrumadas e equipadas...

Quero chegar, com os dois últimos parágrafos acima, à seguinte conclusão: já existe espaço demais para mostrar imagens do modelo de sucesso materialista/consumista.

Não que rejeite e despreze coisas como uma casa com eletrodomésticos, um bom carro, e outras coisas que podemos usar. Mas é importante a reflexão – e ela pode surgir através de fotos – sobre os rumos que a sociedade do consumo está tomando.

Não quero exaltar a pobreza, nem embelezá-la através da fotografia. Contudo, mesmo no mais humilde bairro há pessoas que choram, mas que também se alegram. Sim, pessoas, não números; pessoas que amam porque estão vivas. Pessoas que fazem arte, mesmo com a dor. Pessoas que têm dignidade e orgulho, que têm seu valor, independente da roupa rasgada ou do sorriso furado.

É de se esperar que alguém brade que isso é manter tudo como está, que o pobre não pode se acomodar, mas lutar. Mas de que adianta viver uma vida amarga lutando? Querer mudar não é sinônimo de sofrimento: “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”

O fotógrafo é digno do seu salário; ele não vive só de imagens, mas precisa do pão também. Se há quem faça tal tipo de fotografia para “explorar a pobreza alheia”, como saber? Quem saberá as reais motivações do outro?

*Tiago da Arcela é fotógrafo e psicólogo.

 

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