Olhe tudo o que aparece no visor
Texto e fotos: Tiago da Arcela* |
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Ao se falar em composição fotográfica a dica acima, dada por um professor de fotografia, tão simples e óbvia à primeira vista, é imprescindível. No entanto, na prática não resulta tão fácil reparar em cada detalhe que aparece no quadro.
No momento do clique uma série de variáveis devem ser observadas, como:
- a fotometria, incluídas aí a escolha da profundidade de campo ( o “quanto” da foto estará nítido) e do efeito que se pretende obter com a velocidade de obturação (em simples palavras, congelar ou borrar a imagem);
- o foco, mesmo com as câmeras auto-focus;
- a posição que o motivo ocupará no quadro;
- o momento certo para clicar, especialmente cenas dinâmicas envolvendo pessoas e animais, onde gestos, olhares, movimentos, etc, podem ter um “ponto ótimo” para serem captados de forma que expresse da melhor forma a situação (o tal momento decisivo); e
- o aspecto emocional do fotógrafo na hora do registro, que pode estar, por exemplo, com pressa para conseguir um flagra, ou com receio de ser repreendido por um modelo não-autorizado e mal-humorado.
Nas situações fora de estúdio esses fatores devem ser observados com muito cuidado e numa fração relativamente pequena de tempo. Não raro, por isso, é acontecer de algumas variáveis serem esquecidas.
Parece que a experiência e o concomitante aprimoramento e domínio técnico, fazem com que aquelas variáveis sejam “analisadas” cada vez mais de forma automática e rápida, tal como o motorista não pensa em pisar na embreagem e engatar a marcha: simplesmente o faz. A afirmação de Cartier-Bresson de que sua Leica era uma extensão do seu olho parece ter a ver com isso: ele só “olhava”, sem maiores preocupações, como as que eu, mero aprendiz, por exemplo, tenho.
Me lembro das minhas primeiras experiências com uma câmera reflex de fotometria e foco manuais. Minha maior preocupação, ao lado de buscar assuntos interessantes, era ajustar os marcadores de abertura de diafragma e de velocidade de obturação. Tudo o que queria era ver aquela bendita luz verde na parte esquerda do visor da câmera!
Com o passar do tempo percebi que aquela luzinha, somente, não poderia me fazer feliz. Passei a pensar no que queria da imagem, se um fundo desfocado, se congelar o movimento, etc.
Outro desafio foi fazer o foco manual em situações de rua...Até que agente vai se acostumando com o equipamento e, quase que instintivamente, coloca a abertura e a velocidade desejadas, faz o foco, e clica.
Daí a querer fotografar só quando tiver “luz” é um pulo. O sol passa a ser acompanhado com mais atenção, bem como os efeitos que seus raios provocam no mundo que nos rodeia. Sacrifícios tal como acordar antes da alvorada começam a ser seriamente considerados, e muitas vezes são recompensados com belas fotos.

Ultimamente uma pergunta tem se repetido em minha mente, especialmente quando considero a grande quantidade de fotografias circulando em exposições pela net, em salões, ou mesmo nas salas de residências: “para quê”? O que quero mostrar e o que (quem) quero atingir com a fotografia? Penso que somente imagens de alta qualidade formal técnico-estética não são suficientes para chamar atenção nesse cenário de tanta informação. Acredito que o domínio técnico é importante somente para que possamos dizer alguma coisa. De que adianta saber as regras gramaticais de um idioma, só para falar, falar, mas não ter conteúdo? Me lembro de um autor que escreveu um artigo dentro do rigoroso padrão da linguagem “científica” e mandou para uma conceituada revista, que o aprovou e o publicou. Logo após ele mandou outro artigo dizendo que o anterior simplesmente utilizava termos e jargões do meio científico, mas não dizia NADA.

Agora é possível voltar à questão da composição da imagem. A regra áurea da composição fotográfica é a “lei dos terços”, a qual, com pouco tempo de experiência, é internalizada. Mas como dizia o professor “é preciso olhar tudo o que aparece no visor”.
Uma boa fotografia não depende somente de uma luz mágica e de um belo motivo “dentro dos terços”. Depende, sim, desses fatores, mas também da maneira como o motivo e os demais estímulos visuais da cena se relacionam dentro do quadro. Por exemplo, uma camisa vermelha no meio de um monte de roupas coloridas pode não gerar muito impacto, nem chamar atenção. Já uma bola vermelha boiando sobre a água azul de um rio pode fazer o olhar ir direto para ela.
Creio que o conceito de figura-fundo da Psicologia da Gestalt tem relação com a composição fotográfica. A figura é o que salta aos olhos, o que brilha; na aproximação com a fotografia seria o motivo. O fundo, não menos importante, são os outros estímulos que possibilitam à figura emergir.
Há uma foto que serve de exemplo disso: no meio de uma alinhada fila com dezenas de soldados ingleses há um deles caído no chão. Não há como evitar que o olho vá em sua direção; esse é o papel do fundo, é como setas que apontam na direção da figura.
Detalhes pequenos podem fazer a diferença numa foto, como, por exemplo, uma árvore ao fundo da cena, ou uma pessoa que aparece no quadro, e rouba a cena, sem ser essa a intenção do fotógrafo. Isso é algo comum nas “fotos de turistas”: a pessoa está toda sorridente e bela, posando num ponto turístico, mas há algum estranho na foto que chama mais atenção que ela. É de quem a foto mesmo?
É interessante tentar reparar no que há por trás (na frente e nos lados) do motivo. Se há um prédio ao fundo, podemos pensar na possibilidade de enquadrá-lo por completo, ou não. Se há muitas pessoas passando pelo fundo o mais usual é desfocá-lo, usando uma grande abertura do diafragma. É possível também enquadrar outras pessoas com intenção de relacioná-las com o motivo, sugerindo simbolismos, ainda que aquelas pessoas não tenham, na realidade, nenhuma relação entre si.

Algo que tenho tentado fazer ultimamente, talvez pelo meu gosto por grafismos e abstratos, é encontrar fundos (backgrounds) gráficos e/ou coloridos, e encaixar o elemento humano. Esse fundo pode ser a faixada de uma casa, uma faixa de pedestre, um alambrado de uma quadra esportiva, os degraus de uma escada, etc, etc e etc. “Detectado” um belo fundo é “só” aguardar algo mais para completar a cena, esperar algo que cause o “estranhamento”; não tenho dúvidas que muitas fotos de impacto são conseguidas assim, como as vencedoras do Concurso Leica-Fotografe Melhor de 2004.
Aquelas fotos que descem do céu como presente para nós, num “momento decisivo” que nunca se repetirá são muito raras. Na maioria das vezes será preciso um olhar atento e reflexos rápidos para reagir à situações inusitadas e captar momentos interessantes
O seguinte trecho de “O instante do Fotojornalismo” de Eduardo Oliveira, publicado na
Fotógraphos nº 5/2005, tem muito a ver com essa busca por panos de fundo propícios para que momentos decisivos aconteçam:
“Um bom e velho ritual, que gradua o índice da cobertura de qualquer reportagem jornalística, recomenda desvendar todo o cenário e seus bastidores assim que pisar o local. Andar por todos os lados, habituando o olhar ao ambiente para depois se restringir ao modelo.
O instante do clique é a hora de se concentrar nos trejeitos faciais, no movimento das mãos, na posição ou direção das pernas, na postura corporal do senta-levanta, que revela desde o estado do espírito do fotografado até o ridículo, o engraçado ou o perfil constrangedor da situação.”
O olhar de cada um - não falo só da fisiologia, mas de tudo o que já vivenciamos - vai encontrar backgrounds e motivos que outra pessoa poderia nunca imaginar. Isso é o legal da fotografia, e que talvez faça com que ela sempre esteja nos motivando a ver e a tirar fotos.
*Tiago da Arcela é fotógrafo e psicólogo.